NUM SOLO
(MaicknucleaR)
Todos aqueles sonhos vagueavam na atmosfera como dióxido de nitrogênio fervilhando, seco, no (escuro) castanho de meus olhos. A mesma velha bíblia sem capa fritavam sob os raios solares que atravessavam o insulfilm ilegal e atingiam o painel daquele carro sem graça; cinza como o derredor. Havia uísque no tanque. Um bafo decomposto de escalas de blues lufando em cada metro cúbico daquele cilindro amarelo que cuspia partículas de desespero pelo cano de escape politicamente correto.
Acabou a chuva e na terra só garoa. No horizonte só concreto. Na mente só o mar. A paz só em sonho. Só componho reggae com batida de rap e em cada esquina encontro um Lá com Sétima como se fossem fantasmas atados a uma corda no pescoço, enquanto sopram suas gaitas tristes.
O céu se move lentamente a 1.670 quilômetros por hora. Não há trovão a se temer, mas fico longe do 220. Percebo que não existe adeus no ponto onde não se tem retorno. Só uma cadeira velha, alguns acordes e uma lâmpada triste.
A solidão virou solitude. A mansidão se tornou mais rude. A serra perdeu o sentido, mas me eleva enquanto desço. Faz tempo que não desço.
Faço um solo em seis linhas besuntadas com cortante e uso um caco de vidro como palheta. Minha guitarra respira tão descoordenada como a toco... No silêncio todos conhecem meu nome.
Não havia nenhuma capela naquela estrada capaz de me fazer parar de sangrar a alma. E talvez almas nem sangrem. Talvez eu fale demais na minha quietude. Talvez eu escreva de uma forma assustadora. Talvez eu seja assustador. Mas o coração é do tamanho de uma Kombi e prezo por justiça, honestidade, honradez, uma bela pousada e o recebimento de um belo boquete. Mas parece que só eu ligo pra essas coisas.
Busquei muita aprovação na seara dos arrombados. Perdi bilhões em pérolas que joguei aos porcos. Me esvaziei em quase uma centena de corpos que de beleza só tinham a parte externa. Acreditei em maldições que me jogaram, mas hoje racho o bico de tudo isso quando percebo que tudo era só um treino; aí soltei o pino da granada do foda-se. Enfim. Daqui a 375 anos, provavelmente, nem vou me lembrar dessa merda. Sem público, sem coroa, no silêncio todos falam meu nome.
Após a chuva espancar o asfalto, toda luta se tornava leveza e toda a dor piorava na alma. E após a enchente de silêncio e escuridão sobrou-me um sorriso sacana como quem passa a mão na bunda do perigo e corre... Engraçado como aprendi a rir dos destroços e cantar nas catástrofes...
As linhas na palma da minha mão talvez não me levem a nenhum lugar, mas no último raio de sol, não há nenhuma dor mais importante que a chuva.
Hash de registo do texto na BlockChain:
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